Eu avisei! GitHub agora tem Reservations, e Copilot Enterprise não vale a pena só pelo Copilot
Olá pessoALL, no dia 1º de junho o GitHub virou a chave do billing por uso, exatamente como tinha sido anunciado. PRUs morreram, GitHub AI Credits assumiram, e a fatura passou a refletir o que cada time efetivamente queima em tokens. Eu escrevi sobre isso aqui no blog quando o anúncio saiu, e fechei aquele post com uma frase: a era da IA com preço de promoção acabou, o que vem agora é IA com preço de produção.
Pois é. Passaram três semanas e a peça que faltava no quebra-cabeça apareceu. No dia 17 de junho a Microsoft anunciou os GitHub Pre-Purchase Plans: na prática, reservations para o seu gasto com GitHub, compradas via Azure Reservations. E se você acompanha Azure há algum tempo, sabe que esse movimento era questão de tempo.
Neste artigo eu quero fazer duas coisas. Primeiro, explicar o que são os Pre-Purchase Plans e por que eles eram tão previsíveis. Segundo, e mais importante pro seu bolso, usar o novo modelo de cobrança pra responder uma pergunta que vários clientes me fizeram nas últimas semanas: "Rafael, vale a pena pagar Copilot Enterprise?". Spoiler: na maioria dos casos, não. E no final, separei algumas dicas práticas que a gente vem aplicando aqui na AzureBrasil.cloud pra não desperdiçar crédito.
O que a Microsoft anunciou: reservations para o GitHub
Vamos ao fato primeiro. Quando o billing do GitHub era flat, por seat, a vida do financeiro era simples: número de licenças vezes preço, fim. Previsível e chato. Mas com Copilot, Actions, Codespaces e AI Credits migrando pra cobrança por uso, o gasto virou aquela linha que sobe e desce conforme o time constrói. Em um mês o agente roda pesado, no outro nem tanto. Como é que você fecha orçamento anual com um número que muda toda semana?
É exatamente essa dor que os Pre-Purchase Plans atacam. A ideia é a mesma de qualquer reservation: você se compromete com um valor lá na frente, consome ao longo de 12 meses, e ganha desconto por ter pago adiantado. A Microsoft lançou dois planos, ambos dentro de Azure Reservations:
- GitHub Pre-Purchase Plan. Cobre o GitHub inteiro: Copilot, GitHub Enterprise, GitHub Advanced Security, Actions, Codespaces e AI Credits. Um compromisso só pra plataforma toda.
- GitHub AI Credits Pre-Purchase Plan. Focado só no consumo de AI Credits. Ideal pra quem tem a maior parte da variabilidade vindo dos agentes de IA e quer planejar especificamente esse balde.
A mecânica é idêntica nos dois. Você compromete um valor, recebe desconto embutido (quanto maior o compromisso, maior o desconto, até 15%), e vai consumindo do saldo pré-pago ao longo do ano. A unidade de medida é o GitHub Commit Unit (GCU): cada US$ 100 de custo de varejo consome 100 GCUs. Se o seu uso passar do saldo, você compra outro plano ou cai no pay-as-you-go normal.
Tem um detalhe que vale ressaltar, e que é a pegadinha clássica de reservation: os commit units não acumulam. Acabou o prazo de 12 meses, o que sobrou evapora. Ou seja, se você superestimar o consumo, desperdiça. Se subestimar, paga o excedente no preço cheio. A graça está em acertar a estimativa. E é aí que o trabalho de FinOps começa.
Pra dar dimensão: a Microsoft usa no anúncio o exemplo de uma organização que espera US$ 500.000 de uso elegível no ano. Ela escolhe o tier de 500.000 commit units, paga US$ 425.000 adiantado (os tais 15% de desconto) e usa esse saldo ao longo dos 12 meses. Um compromisso único, plataforma inteira, com economia embutida.
Por que isso era tão previsível
Agora deixa eu puxar o fio da meada do título. Por que eu disse "eu avisei"?
Pensa em qualquer serviço Azure de peso que você usa. Máquina virtual tem Reserved Instances e Savings Plan. Azure SQL tem reservation. Cosmos DB tem. App Service tem. O padrão da Microsoft é sempre o mesmo: serviço nasce no pay-as-you-go, amadurece, vira gasto relevante e recorrente nas empresas, e aí ganha um modelo de compromisso pra você travar preço em troca de previsibilidade. Sempre foi assim.
Então, quando o GitHub mudou o Copilot pra cobrança por token em 1º de junho, ficou óbvio o que vinha depois. Cobrança por uso gera variabilidade. Variabilidade assusta financeiro. E a resposta da Microsoft pra financeiro assustado tem nome há mais de uma década: reservation. Não precisava de bola de cristal pra ver isso chegando, precisava só ter visto esse filme antes com VM, SQL e todo o resto do catálogo.
Tem mais uma camada aqui que eu acho bonita do ponto de vista de FinOps. Como os Pre-Purchase Plans são comprados via Azure Reservations e o GitHub é faturado pela subscription Azure vinculada à sua organização, esse compromisso entra na mesma esteira que você já usa pros seus outros commitments de Azure. Mesmo portal, mesma lógica de scope, mesmo relatório de Cost Management. Pra quem já faz gestão de reservation no Azure, é mais um item na mesma planilha, não um processo novo.
E não para no GitHub. Quem acompanha de perto já viu que existe também o Microsoft Agent Pre-Purchase Plan, mais amplo, que cobre Foundry, Copilot Studio, Fabric e GitHub juntos. A regra de bolso é simples: escolha o GitHub Pre-Purchase Plan quando o GitHub é a plataforma que você está planejando, e o Microsoft Agent Pre-Purchase Plan quando o objetivo é desenvolvimento de agentes espalhado pelo ecossistema Microsoft inteiro.
Beleza, reservation explicada. Mas comprometer dinheiro adiantado só faz sentido se você sabe quanto vai gastar. E pra saber quanto vai gastar, você precisa primeiro escolher o plano de Copilot certo. É aqui que a conversa fica interessante, porque escolher errado custa caro.
A pergunta que importa: Copilot Enterprise vale a pena?
Essa é a pergunta que mais ouvi nas últimas semanas. E a resposta curta, pra maioria dos times, é: não, se tudo que você quer é usar o Copilot.
Vou construir o raciocínio em camadas, porque a conta tem armadilha. Vamos comparar maçãs com maçãs.
Camada 1. O que parece à primeira vista. Você olha a tabela de planos e vê: Copilot Business custa US$ 19/usuário/mês e vem com 1.900 créditos. Copilot Enterprise custa US$ 39/usuário/mês e vem com 3.900 créditos. O dobro de créditos por pouco mais que o dobro do preço. Parece que, se o seu time usa IA pesado, o Enterprise é o caminho natural. A princípio, a resposta seria sim.
Camada 2. O pré-requisito escondido. Aqui mora o detalhe que muita gente não lê na letra miúda: o Copilot Enterprise exige o GitHub Enterprise Cloud. Você não compra Copilot Enterprise sozinho. Pra ter direito a ele, precisa pagar a licença base da plataforma GitHub Enterprise, que sai por volta de US$ 21/usuário/mês. Ou seja, o custo real de um usuário de Copilot Enterprise não é US$ 39. É US$ 21 + US$ 39 = US$ 60/usuário/mês (algo como R$ 330, na cotação de ~R$ 5,50). De repente o "pouco mais que o dobro" virou três vezes o preço do Business.
Camada 3. Quanto valem os créditos extras. A diferença entre os planos é de 2.000 créditos (3.900 do Enterprise menos 1.900 do Business). E quanto custa um crédito avulso? O overage do GitHub é US$ 0,01 por AI Credit. Faça a conta: 2.000 créditos extras valem exatos US$ 20 se você comprar no preço de excedente. Vinte dólares. É isso que os créditos a mais do Enterprise representam, em dinheiro.
Camada 4. E aqui entra o GRANDE MAS. Se os 2.000 créditos extras valem US$ 20, então eu consigo o mesmo balde de 3.900 créditos partindo do Business: pago os US$ 19 do plano e adiciono US$ 20 de créditos avulsos. Total? US$ 39/usuário/mês, com os mesmos 3.900 créditos do Enterprise, e sem pagar os US$ 21 da licença base do GitHub Enterprise. A matemática não mente.
Olha a comparação lado a lado:
| Opção | Custo/usuário/mês | Créditos inclusos | Comentário |
|---|---|---|---|
| Copilot Business | US$ 19 (~R$ 104) | 1.900 | melhor baseline |
| Copilot Business + 2.000 créditos extras | US$ 39 (~R$ 214) | 3.900 | mesma quantidade do Enterprise |
| GitHub Enterprise Cloud + Copilot Enterprise | ~US$ 60 (~R$ 330) | 3.900 | US$ 21 de base + US$ 39 de add-on |
Repara na segunda e na terceira linha. Mesma quantidade de créditos, US$ 21 de diferença por usuário. Se você tem 50 desenvolvedores, isso é US$ 1.050 por mês, mais de R$ 5.700, jogados fora todo mês pra ter um balde de créditos que você conseguiria por US$ 39 no Business com top-up. Multiplica por 12 e veja o tamanho do desperdício anual.
Confesso uma coisa, com a honestidade que vocês já conhecem: a gente quase caiu nessa armadilha aqui. No primeiro impulso, quando os créditos entraram, a tentação foi padronizar todo mundo no plano mais "completo". Sorte que paramos pra fazer a conta antes de assinar embaixo. Lição aprendida: o plano mais caro raramente é o mais inteligente, e crédito é crédito independentemente da etiqueta do plano que veio anexado.
Então, só pelos créditos, o GitHub Enterprise não se justifica. Ponto.
Quando Copilot Enterprise faz sentido
Agora vamos ser justos, porque seria desonesto da minha parte sair dizendo que Copilot Enterprise não presta. Não é isso. A questão é o motivo pelo qual você está pagando.
O Copilot Enterprise faz todo sentido quando você já precisa do GitHub Enterprise Cloud por outras razões. Nesse caso a licença base já está paga de qualquer jeito, e o Copilot Enterprise vira um add-on natural em cima dela. Quando isso acontece? Quando você precisa de governança de verdade: SAML/SCIM, Enterprise Managed Users, data residency, política centralizada, trilha de auditoria pra compliance, security configurations aplicadas no nível enterprise. Eu escrevi um artigo inteiro sobre como o GitHub Enterprise governa código em escala. Se a sua empresa tem esses requisitos, o GitHub Enterprise não é luxo, é necessidade, e o cálculo dos US$ 21 muda completamente, porque ele não está ali só pra liberar o Copilot.
Também faz sentido pra times que vivem de workflows agentic pesados: Copilot cloud agent, code review automatizado, agent mode, refactor de grande contexto, fluxos integrados ao GitHub.com. Esses times consomem recursos e features que o ecossistema enterprise entrega melhor.
Na prática, a estratégia de rollout que eu recomendo é segmentada, não uniforme:
- Copilot Business pra maioria dos desenvolvedores. Configure budget e overage, monitore o consumo, pague crédito extra só onde precisar.
- Copilot Enterprise só pra grupos específicos que comprovadamente precisam das features de plataforma enterprise, ou pros power users de agente, depois que o uso real justificar.
E aqui vai um ponto que pouca gente sabe: o GitHub permite escolher o plano de Copilot por organização dentro do enterprise. Ou seja, você não é obrigado a padronizar tudo no mesmo nível. Dá pra fazer piloto, segmentar por time, e subir só quem precisa. Use isso a seu favor.
Dicas que aplicamos pra extrair o máximo dos créditos
Escolher o plano certo é metade da batalha. A outra metade é não desperdiçar o crédito depois que ele está na sua mão. Como o Copilot agora cobra por GitHub AI Credits, tarefas longas e complexas queimam mais crédito que um chat rápido ou uma edição pontual. Aqui vão as práticas que a gente vem aplicando aqui na AzureBrasil.cloud:
- Use o Auto no seletor de modelo, onde estiver disponível. Ele escolhe um modelo apropriado pra tarefa e ainda dá 10% de desconto no custo do modelo nos planos pagos. Desconto de graça por deixar a plataforma decidir? Aceito.
- Comece com Auto ou um modelo menor. Só suba pra um modelo mais poderoso quando a tarefa realmente pedir raciocínio mais profundo ou contexto mais amplo. Não chame o canhão pra matar mosquito.
- Mantenha o contexto focado. Escope arquivos, tools, instructions e sessões de agente só pro que é necessário. Contexto inchado é crédito queimado à toa.
- Reserve os modelos poderosos pro que importa: bugs difíceis, raciocínio complexo, refactors grandes. Não pra toda tarefinha do dia a dia.
- No Copilot CLI, use o
/chronicleonde disponível pra trazer dicas de custo a partir do histórico da sua sessão. - Olhe o usage dashboard. Entenda sua franquia e a velocidade com que você está consumindo os créditos. Você não controla o que não mede.
E agora a dica que eu quero que você grave, porque é a que mais economiza e a que mais gente ignora: code completions e Next Edit Suggestions continuam ilimitados e gratuitos nos planos pagos. Eles não consomem crédito nenhum.
Por que isso importa tanto? Porque eu vejo gente abrindo o chat do Copilot e pedindo "muda a cor desse botão pra azul", e isso gasta crédito. Pra trocar a cor de um botão! Abre o arquivo, posiciona o cursor, e deixa o autocomplete (que é grátis) te ajudar, ou simplesmente edite você mesmo. Tarefa trivial não merece uma chamada de agente. Guarde os créditos pros problemas que realmente exigem o cérebro do modelo.
Juntando as duas pontas deste artigo: se você definiu o plano certo (Business pra maioria) e o time usa crédito com disciplina, você tem agora um número de consumo previsível. E número previsível é exatamente o que torna um Pre-Purchase Plan uma decisão inteligente em vez de um chute. Aqui na AzureBrasil.cloud, como somos parceiros Microsoft, ajudamos clientes brasileiros a faturar todo esse consumo de GitHub pela subscription Azure e a comprar os Pre-Purchase Plans via Azure Reservations, com pagamento em BRL via boleto, fugindo do cartão internacional e do IOF de 6,38%. Se o seu time está olhando pra essa decisão sem saber por onde começar, fala com a gente.
Conclusão
Recapitulando a viagem. Os GitHub Pre-Purchase Plans não são surpresa nenhuma, são o passo previsível depois que o billing virou por uso, do mesmo jeito que VM, SQL e meio catálogo do Azure ganharam reservation antes deles. Se você tem visibilidade do seu consumo, eles travam preço com até 15% de desconto e botam o gasto de GitHub na mesma esteira dos seus outros commitments Azure.
Mas antes de comprometer dinheiro adiantado, acerte o plano. E a conta é clara: se tudo que você quer é usar o Copilot, fique no Copilot Business e adicione créditos avulsos quando precisar. Pagar os US$ 21 da base do GitHub Enterprise só pra liberar o Copilot Enterprise é jogar dinheiro fora. A menos que você já precise da plataforma enterprise por governança, compliance ou identidade. Aí, e só aí, a conta vira.
No fundo, o recado é o mesmo do post anterior, só que mais maduro: a fase em que ninguém olhava o custo da IA acabou. Agora é medir, escolher o plano certo, usar crédito com disciplina e, se fizer sentido, travar preço com reservation. Menos romântico que IA ilimitada por US$ 20? É. Mais sustentável e mais previsível? Também.
E você, já fez a conta de quanto seu time gastaria no novo modelo? Já está no plano certo, ou ainda está pagando Enterprise só pra usar o Copilot? Comenta aqui embaixo, quero saber como diferentes times estão se posicionando pra essa decisão.
[]s e até a próxima.
Links Úteis
Anúncio e documentação
- Introducing GitHub Pre-Purchase Plans: A Simpler Way to Plan Your GitHub Spend — anúncio oficial no FinOps Blog
- GitHub Pre-Purchase Plan — Microsoft Cost Management — passos de compra, scope e pré-requisitos
- GitHub AI Credits Pre-Purchase Plan — Microsoft Cost Management — plano focado em AI Credits
- Microsoft Agent Pre-Purchase Plan — compromisso mais amplo (Foundry, Copilot Studio, Fabric, GitHub)
- Models and pricing for GitHub Copilot — tabela de preços por modelo e mecânica de créditos
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Ferramentas
- Azure Reservations — onde os Pre-Purchase Plans são comprados
- Watch: como faturar o consumo de GitHub pela sua subscription Azure — vídeo prático da Microsoft